sábado, 25 de fevereiro de 2012

Kiv" . . . . . . . . # 02

“Minerva e as Musas” do pintor francês Jacques Stella (1596 – 1657)




Pouco antes de Kiv adormecer, um conto surgiu de suas mãos, intitulado: As Nove Musas.

Quando fui seu único amigo, me marcou aquela noite onde aquele telefone ficou ligado por pelo menos uma hora. Ela reencontrou os amigos e nunca mais me viu.

A segunda era tão minha irmã que um simples pensamento nela me censurava, me lancinava. Assim deixei e durante os anos vi todos os seus amores, dissabores, angústias e conquistas. Sempre paralelo.

A terceira me ajudou a criar o hábito de escrever algo nunca entregue. Durante aquele maldito festival a chamei e as palavras faladas travaram de novo. Eu tenho algum problema.

A quarta me foi passageiro e sequencial. Minha tão querida colega de faculdade que naqueles primeiros meses de uma nova vida se tornou a única companhia.  Mas no meio do caminho, foi chamada para outro destino. E com isso sumiu para sempre do meu alcance.

A quinta era um antigo enigma de escola. A menina tão meiga e solitária, doentia e delicada, daquelas que se tem uma vontade compulsiva de proteger... O tempo nos fez novamente amigos, até o dia que ela não precisou mais de mim como seu protetor. E eu desapareci. Como sempre faço.

A sexta enveredou um caminho que me entristeceu. E eu achei que poderia salvá-la. Mas aos poucos eu também fui descartado de sua antiga vida e vi um abismo. Ela tinha esvaziado meu coração, não era mais minha musa.

Teve Melpomene, uma das minhas compulsões mais doentias. Apesar dessa afirmação assustadora, sobre ela não me vinham desejos lascivos. Apenas uma fascinação inocente e estúpida. No máximo eu devo ter-lhe dito bom dia umas três vezes, e não sei por que, eu tremia na sua presença. Soube apenas seu nome, nunca a conheci, e nunca conhecerei.

A oitava foi mais uma vez uma amizade que me completava em meu mundinho cinza. Alguém que até hoje personifica o que eu procurei sempre. Mas sua retidão nos deveres e outros motivos – acho que uma simples falta de sincronia – nos separaram. De todas, é aquela cuja  simples palavra ainda me é uma recompensa...

A ultima lhe vi crescer desde sua infância, silenciosamente, mas sem nunca lhe prestar atenção, até que seus olhos juvenis e uma história oculta conduziram meu coração para mais uma armadilha. Dividimos um local sagrado, uma batalha, uma filosofia. Mas nada adiantou. Seu mundo se tornou outro, e o meu também. Outra vez tentei, anos depois, após fugir terrivelmente dela com formação reativa, apenas para repetir o mesmo erro...

Só tive dois relacionamentos. Mas em ambas as vezes não eram pessoas que eu nutria o forte sentimento que me guiava, eram apenas um apelo a minha carência afetiva, o que inevitavelmente me conduziu ao fim. Um egoísmo que me corrói até hoje e me fez fugir de pessoas que gostavam de mim, mas que não era capaz de retribuir...

Sempre quis um relacionamento inocente. E caí na minha própria armadilha. Hoje, já homem,  procuro por uma gota escassa num mundo que menosprezou seus relacionamentos, tornando a concupiscência a regra. 

Será que valeu a pena sonhar tanto? Não tenho dados suficientes para a resposta. É por isso que continuo.

Um monge aguardando sua raposa.
Ilustração de Yoshitaka Amano para o livro "Sandman The Dream Hunters" de Neil Gaiman.
Leitura recomendadíssima!



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Filosofia da Estrada # 03

E por fim, depois de muito investimento e planejamento (e enrolação), finalmente cumpri minha primeira meta de 2012: pedalar de Campo Mourão até Maringá, e voltar no dia seguinte. Uma aventura simples, saudável e gratificante.
Na verdade, os 93 km que separam ambas as cidades não são uma grande distância. Não há nenhum mérito extraordinário nisso. Ciclistas profissionais treinam rotineiramente distâncias muito maiores que esta e em tempos muito menores do que eu fiz e cicloturistas cruzam o Brasil (e o mundo até) montados em suas bikes. O mérito é apenas um orgulho pessoal. Um desafio só meu que cumpri e que me deixou muito satisfeito. Talvez nem tanto pelo destino, mas pela viagem, que compartilharei agora...

domingo, 29 de janeiro de 2012

Filosofia da Estrada # 02

Ao final de cada ano tenho o hábito de escrever metas bem definidas para serem cumpridas durante os meses vindouros, e fico feliz, pois consigo cumprir grande parte delas com êxito. Algumas envolvem coisas mais comuns, como tirar a carteira de motorista (meta cumprida ano passado) e comprar um violão; outras são mais ousadas, como participar de um triathlon e escrever um livro em um mês; já outras são completamente piradas, tipo ordenhar uma vaca e voar de asa delta. Na categoria das metas piradas, cismei que esse ano iria praticar cicloturismo, que é simplesmente viajar de bicicleta. Meu primeiro destino será algo simples, que é ir até Maringá, num trajeto de cerca de 93 km e voltar no dia seguinte. Quero cumprir essa meta já em fevereiro e não tenho poupado esforços (e despesas) no planejamento minucioso da viagem, a fim de evitar problemas e imprevistos.
O interessante dessa história foi o ocorrido há dois dias atrás, quando um bombeiro de Santa Catarina chegou no nosso quartel (em Campo Mourão) de bicicleta. Nossa identificação foi quase imediata. Paulo Cesar Gaiovis (nem sei se escreve assim, só lembro que ele comentou que o nome era pra ser Gaiovics ou Gaioviks, mas erraram no cartório... acho que eu também erraria...) simplesmente saiu de Terra Nova do Norte – MT, e seguia destino até Videira – SC, num trajeto que até então já tinha somado mais de 2000 km. O que senti foi um misto de admiração e vergonha, pois ele já viajava há dias, carregando barraca e demais utensílios num bagageiro feito com uma tábua enquanto eu fazia um verdadeiro planejamento de Sistema de Comando de Incidentes para chegar a uma cidade vizinha...

Independente disso, desejo sorte e proteção pra esse bombeiro maluco. A jornada dele só serviu pra jogar mais gasolina na minha fogueira de viajante ciclista, e espero que Maringá seja apenas o início de outras jornadas, divertidas e silenciosas, com o vento no rosto e uma longa estrada adiante. E que sirva de incentivo para saber que nós somos muito mais fortes e capazes do que imaginamos. Ora pois, o que são 2000 km de bicicleta?!
Um veículo limpo, saudável e barato (e nas cidades, até mesmo mais ágil que o turbilhão de carros engarrafados...).
É por isso que eu digo e repito: pare de se fingir de morto e vá pedalar!!

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Filosofia da Estrada

Entre as várias aventuras destes últimos anos, tem sido marcante pra mim a quantidade de viagens que tenho feito no dedão (a popular carona). Na verdade, eu não estico o dedo na beira da estrada, mas uso plaquinhas indicando para onde vou. É um jeito barato e divertido de pegar estrada, apesar de um pouco arriscado. Mas vale a aventura.

Primeiro de tudo, é que eu sempre peço carona fardado. E com uma identificação de “bombeiro”na plaquinha. Isso ajuda muito, pois grande parte das pessoas que me ajudaram só parou por eu estar fardado. Além disso, existe um espírito fraterno entre os militares, haja vista que muitos irmãos de farda, inclusive da reserva (aposentados), já me ofereceram ajuda pelas várias cidades que zanzei.
Outro fator importante que me ajudou nisso é ser homem. Infelizmente, para as mulheres, pedir carona é atrair problemas. Ainda mais sozinha.
E falando em mulheres, vou destacar, dentre as dezenas de caronas que já peguei por aí, as valentes mulheres que me ofereceram auxílio na estrada. Não parece, mas quem dá a carona passa muito mais medo do que quem pega. Ainda assim, durante minhas viagens, já tive o privilégio de contar com a ajuda de mulheres corajosas, que durante a conversa no trajeto, se mostraram pessoas decididas e inteligentes. Todas elas. O melhor é que a viagem passava que eu nem percebia, pois a conversa sempre fluía.
Mas enfim, fica neste post uma pequena homenagem a todos os destinos que se cruzaram com o meu na beira da rodovia. Pessoas de diversas crenças, classes, personalidades e objetivos. Grande parte delas eu provavelmente nunca mais verei, mas fica um eterno muito obrigado pela ajuda que me ofereceram nos dias em que ansiava por visitar minha família ou voltar para meu trabalho.
E no dia em que eu for o motorista, que Deus me permita ser compreensivo e útil para o estudante ou militar que estiver beirando o acostamento, com uma plaquinha nas mãos e uma cidade no coração.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Um dia desses... # 04

Quando morei em Maringá, durante o curso de soldados do Corpo de Bombeiros, vivia sob uma rotina militarizada e, frequentemente, desesperadora. Acordava (muito) cedo todos os dias, fazia a barba até sangrar os poros, tinha aulas desde manhã até o ocaso do dia e treinava corrida e natação a semana toda. Natação, especialmente, foi um desafio a parte, pois além dos treinamentos no quartel, pagava academia particular e nadava todas as noites que tinha disponível, dado meu fraco desempenho na água, que precisava ser melhorado a qualquer custo. Nessa rotina, era comum ter sono o dia inteiro, e dormir durante uma aula, aliás, PISCAR durante uma aula já era motivo suficiente para ter seu nome anotado e designado para passar parte do final de semana no quartel trabalhando, como forma de punição. 
E os meses seguiram em minha obsessão de se tornar bombeiro. Durante o início do curso, abdiquei de tudo. Fiquei meses sem ver minha família, perdi contato com amigos e minha única dedicação era estudar, treinar, estudar e treinar. Loucamente, sem descanso ou trégua.


Não adiantou.

Tomava bomba a cada prova com notas medíocres. E a falta de sono me estressava, me tornando agressivo com as brincadeiras e provocações dos colegas, e fazendo eu me odiar ainda mais, pois sabia que me dedicava apenas àquilo. Durante quase três meses permaneci nesse enlouquecimento até que a solução veio de forma simples e espontânea.  Num certo final de semana, peguei minha bicicleta, saí do quartel e descansei minha mente. Ia ao cinema, comprava livros, brincava no fliperama (foi em Maringá que viciei no Pump It Up, a famigerada máquina de dança) e dormia mais. O resultado não foi diferente: minhas notas decolaram e, acredito eu, se tivesse feito isso desde o começo do curso, teria conseguido uma classificação muito melhor como soldado.
Mas o fato que quero ressaltar foi num dos sábados livres, onde eu adorava passear pela quente e divertida Maringá. Durante uma visita ao Mercadão Municipal, parei numa barraquinha de tapioca e garapa, e enquanto não era atendido, folheava uma bíblia deitada no balcão. Logo, fui atendido por uma senhora muito solícita, e conversamos um bom tempo sobre religião, enquanto eu bebia muuuita garapa gelada. Com o passar das semanas, passei a frequentar o lugar e conheci também sua filha, uma jovem  que a ajudava nos afazeres. Ambas pessoas muito simpáticas. Durante todos os meses que morei em Maringá, foram algumas das pouquíssimas pessoas novas que conheci (de fora do quartel).
Por fim, em dezembro, recebi de presente um Tsuru, a garça feita em origami, que, de acordo com minha pequena amiga, é um desejo de boa sorte às pessoas que se estima.
A parte triste da história foi nos seguintes meses, quando me formei e fui transferido para Campo Mourão. Numa ida à Maringá, posteriormente, decidi visitar aquela barraquinha de garapa onde as tantas conversas que tive mantiveram meu psicológico no lugar durante o período de curso. O local havia fechado.
E desde então, nunca mais vi a dona e sua filha, que foram duas das amizades mais importantes que fiz nessa fase da minha vida que me mudou tanto. Independente disso, restaram três coisas: as lembranças das divertidas conversas de sábado à tarde; a gratidão pelo apoio psicológico, mesmo que indireto; em um Tsuru.
Que está me levando pra cada vez mais longe...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Kiv " . . . . . . . .

Um dia existiu um pedaço de mim chamado Kiv.
E ele era mais ou menos nesse naipe:

Nome de uma certa garota,


                Certos momentos são tão breves que acabam por nunca perder seu encanto. Tornam-se uma memória de poucas imagens, mas ainda assim, algo vívido, flamejante e intenso. E a dúvida que suscitam torna estas memórias ainda mais sedutoras aos olhos de quem tem nas palavras um refúgio para quando o coração transborda e encontra na poesia seu escoadouro.
                Por você guardo estes pequenos episódios. Quantas vezes eu lhe vi? Talvez três ou quatro, mas o suficiente para me aguçar algo muito além do que se classifica hoje como atração. Conheço-te pouco e por isso não posso dizer que te amo, posto que o amor é o estágio final, estável, reto e contínuo de um relacionamento que se desenvolveu em todas as suas fases. Entretanto, guardo a centelha que você me despertou por todas as suas belezas, inclusive a de espírito, a qual ouvi muito falar. Felicite-se, pois muitas pessoas a admiram, e fizeram questão de divulgar isso. A tal ponto que um certo peregrino ouviu todas essas coisas a tempo de contemplar seu rosto uma última vez antes de partir para seu novo mundo, sua meta, seu destino, sua Jerusalém.
                Se tudo o que ouvi lhe confere a sua maneira ser, continue sempre assim e inspire a todos que cruzarem seu caminho, seja àqueles que lhes deram as mãos, que andam ao seu lado, ou mesmo aqueles que apenas passaram tangencialmente por você. Neste caso, eu.
...

Kiv precisava sempre de uma musa para se manter vivo. 
“Kiv” era Yin, “Dee” era Yang. …Ambos se tornaram Fábio. Que não era nada.


Romanticide - Nightwish
Essa acompanhou Kiv por muito tempo

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Por Deus, pela Pátria, por DeMolay # 02

Apesar da data especial já ter passado há vários dias, eu não conseguiria dormir em paz se não fizesse a homenagem que fosse pelo dia 8 de novembro.
Nesta data, há 52 anos, Frank Sherman Land abandonou as obras terrenas e se juntou ao Pai Celestial, seu Grande Arquiteto.

Este mesmo Tio Frank, em 1919, criou a Ordem DeMolay, que durante as décadas se consagrou entre as maiores organizações juvenis do mundo e cruzou o destino de milhões de adolescentes e rapazes, entre os quais, eu.
Esta Ordem trouxe amigos a um adolescente agressivo e solitário. Tornou-o mais calmo, apresentou-lhe conceitos de liderança, deu-lhe a oportunidade de viajar e conhecer pessoas de um estado e de um país inteiro. Ajudou-lhe a desenvolver sua arte e até mesmo teve participação decisiva na empreitada para seu futuro emprego – que hoje é uma dádiva presente.

E, enfim, 2009, a Ordem deu-me um fardo para o resto da vida. Que isto seja compartilhado, e que as linhas abaixo sejam sempre cobradas de mim.

Juramento do Grau Chevalier

Eu, Fábio Batista Lara, na presença de Deus todo poderoso e destas testemunhas aqui reunidas, eu solenemente prometo, contrato, e juro que irei, de agora em diante, militantemente e com a mais profunda devoção, servir a Ordem DeMolay e as verdades que ela ensina.

Renovo agora e para o futuro, todos os votos e juramentos feitos na Ordem DeMolay.

Prometo e Juro, lealdade perpétua e serviços a minha Pátria, em todos os setores de diligências e que serei sempre um oposicionista a tumultos, anarquias, ou qualquer distúrbio que possa ferir o bem maior o meu País.

Prometo e Juro, que estarei em constante luta contra a ignorância, a superstição e as forças do mal que possam perverter ou escravizar a juventude.

Prometo e Juro que sempre me esforçarei para servir a Deus.

Prometo também que procurarei, daqui em diante, ser um melhor homem do que tenho sido até agora.

Eu, muito solenemente, prometo e juro que, daqui em diante, no dia 08 de novembro de cada ano, como forma de reverenciar a memória de nosso Fundador, FRANK SHERMAN LAND, estarei em comunhão com um Irmão Chevalier, ou com uma Corte de Chevaliers onde quer que eu esteja e se isso não for possível, repartirei o pão com um DeMolay Ativo ou um Jovem em sua adolescência.

Assim Deus me ajude!


Obrigado por ter mudado minha vida, Tio Frank, mesmo que indiretamente.