quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Filosofia da Estrada # 05



Categorias de Garupa

Desde que comecei a andar de moto, há alguns anos, nunca tive garupa fixa, ao contrário dos outros amigos motociclistas, que carregam suas esposas e constantemente me cobram/lembram/achincalham disso, o que é mais um dos vários motivos pelos quais prefiro viajar sozinho.
Entretanto, vez ou outra carrego alguém por motivos variados, que vão de uma simples carona até mesmo por vontade e curiosidade da garupa em dar uma volta numa moto custom. Minha Dragstar 650 é uma moto boa para quem vai no banco traseiro: além de apoio para as costas, o banco é mais alto que o do piloto, permitindo uma visão privilegiada de tudo que acontece em volta e sem bater os capacetes a cada freada.
Carregando pessoas diferentes, todavia, me faz perceber algo engraçado: a maneira como cada garupa se comporta. Algumas já têm experiência e ficam mais confortáveis no passeio, outras, ainda galho verde, se agarram no piloto como se sua vida dependesse disso (o que não deixa de ser verdade se considerarmos o jargão de que motociclista é acima de tudo um sobrevivente).
Hoje vou catalogar, para fins puramente humorísticos e despretensiosos, os tipos de garupa que já carreguei no lombo da minha antiga Viraguinho e minha atual Dragstar. Nomes não serão citados e o post não pretende de maneira alguma ofender as queridas pessoas que já tomaram um pouco de vento comigo – pessoas, inclusive, que guardo muita consideração.

- Garupa Manobra de Heimlich: entrelaça as mãos em torno do abdome do piloto. Cada acelerada é um golpe no diafragma e uma leve cuspida de ar. Pouca periculosidade, se você fizer abdominais periodicamente.

- Garupa Contrapeso: geralmente iniciante e com medo. Você joga o peso pra direita, ela imediatamente pende para a esquerda, desequilibrando a moto na curva, o que é bem trabalhoso de recuperar. Nível de periculosidade alto se você dobrar desprevenido alguma esquina. Uma conversa rápida sobre jogar o corpo junto com o piloto resolve de imediato o problema.

- Garupa Estranguladora: passa os braços em torno do pescoço do piloto e que “Deus nos acuda”. Apesar da baixa periculosidade, é um pouco desconfortável. Acontece quando o banco traseiro é mais alto que o dianteiro, permitindo o mata-leão.

- Garupa Valsa: a mais elegante de todas. Braço direito em volta do abdome do piloto, mão esquerda no ombro do mesmo. Confortável de andar, sem muita periculosidade. Aceleradas bruscas podem transformá-la de imediato na Garupa Mochila. Lembro bem de uma garupa valsa. Dava pra ligar qualquer dia desses e perguntar se ela quer novamente dar uma volta. :P

- Garupa Mochila: geralmente iniciante. Passa os braços no peito do piloto, trava as pernas no quadril e se segura desse jeito sem mover um músculo. É bom e seguro, pois não faz movimento algum nas curvas, não desequilibra a moto, não bate capacete... parece realmente uma mochila com as alças bem justas. A última garupa mochila que carreguei, acho, inclusive, que se desmontasse da moto sem falar nada, ela continuaria pendurada nas minhas costas. Hue

Bônus – Garupa Titanic: certa feita, levei uma amiga para um passeio e não percebi mão alguma me segurando. Imaginei que estivesse se apoiando no sissy bar. Também pela altura do banco dela, não conseguia ver nada pelo espelho. Tudo bem. Algum tempo depois, um colega me perguntou quem era a guria que estava de braços abertos na minha garupa e dando tchau pra todo mundo na rua. “Ah, tá explicado”.

A gente pilota e não vê de tudo, hehe.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A Jornada da Heroína

Em meados de 1950, Joseph Campbell publicou o livro “O herói de mil faces”, onde comparava mitos, lendas e religiões do mundo inteiro, evidenciando suas semelhanças e dissecando-as em uma série de passos que chamou de “monomito” – o mito único. Assim, de acordo com sua pesquisa, todo herói passa por situações bem parecidas, cujo mote básico é sair de um mundo comum, embarcar em uma aventura, superar uma grande provação e retornar, transformado. Seu trabalho influenciou o cinema e a literatura desde então, sendo facilmente detectável em obras como Guerra nas Estrelas, Matrix, Harry Potter, entre outros.
Um fato curioso, entretanto, é que nos mitos antigos o herói geralmente é um homem, e a mulher quase sempre é representada por um aspecto feminino superior: uma deusa, uma grande mãe ou sacerdotisa, que auxilia, e eventualmente desafia o herói. Há alguns poucos exemplos de mulheres protagonistas de seus próprios mitos – Perséfone, Alceste, Anesidora – mas elas são minoria e infelizmente, pouco conhecidas.
Mas no post de hoje – que marco como meu retorno aos escritos deste empoeirado blog – quero mencionar algumas heroínas modernas da sétima arte. Mulheres que passaram pela jornada do herói em seus respectivos filmes, e que mostraram algum aspecto de caráter que me chamou a atenção. A lista é pequena – muitas outras heroínas do cinema poderiam ser mencionadas – mas acredito que o grupo é diverso e segue as minhas preferências cinematográficas.

ALERTA: SOLTO SPOILERS DE TODOS OS FILMES MENCIONADOS, INCLUSIVE EVENTUAIS REVIRAVOLTAS.

quinta-feira, 19 de março de 2015

A sombra de um dia 18


"O que é um fantasma?
Um evento terrível condenado a repetir-se eternamente?
Um instante de dor, talvez?
Algo morto, que por um momento ainda parece vivo?
Um sentimento, congelado no tempo?
Como uma fotografia embaçada;
como um inseto preso no âmbar.

Um fantasma. Isso é o que sou."

(retirado do filme: A Espinha do Diabo, de Guillermo del Toro).

Há um ano perdi um amigo. Não sei mais o que escrever.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A Desolação de Lara

Por volta de dezembro do ano passado, um fato começou a gerar preocupação no quartel: O Cabo Paulo, vulgo Paulinho, ia tirar férias. Preocupante, pois, afinal, ele era o rancheiro do grupamento (o militar responsável por fazer a comida), e possuía não só paixão pela coisa como uma habilidade enorme no manejo e preparação de alimentos. Ao contrário da fama negativa e engraçada que a maioria dos quartéis possui por conta de sua comida (carne de monstro, frango dinamitado e chá de gandola são gírias de caserna recorrentes), em Guarapuava come-se muito bem. Até melhor que em muitos restaurantes por aí...
Era preciso achar um substituto. Alguém que assumisse a função de rancheiro no longo mês que seguiria das suas férias. E eu, metido como sempre, coloquei meu nome como voluntário.
Não é segredo para ninguém que minha maior decepção de 2013 foi reprovar na última prova para admissão ao curso de guarda-vidas, coisa que ainda almejo loucamente dentro do Corpo de Bombeiros. Negligência minha, com certeza, que irei reparar este ano, tentando novamente. O fato é que, uma vez reprovado, pensei muito em coisas que poderia fazer, já que ficaria durante todo o verão em Guarapuava, e não trabalhando no litoral. A primeira providência foi realizar minha sonhada viagem para a Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina, jornada que levou quatro dias e 1600 km, com direito até a uma visita ao Beto Carrero e um pernoite de emergência em motel (sozinho!). 

Após a viagem, resolvi imediatamente começar a autoescola e tirar a almejada categoria D, o que me permitirá no futuro pilotar a ambulância e até mesmo o caminhão de combate à incêndios. E para completar a ocupação da minha cabeça, resolvi ser o rancheiro. Primeiro, por gostar e saber um pouco sobre cozinha. Segundo, porque o horário de trabalho do rancheiro é muito bom. Mas o motivo mais forte foi o terceiro. Que explico adiante.
Eu não chego nem perto das habilidades culinárias do cabo Paulinho. Sabia que receberia críticas e muitas brincadeiras ao longo de janeiro. Mas resolvi tentar como um exercício de resiliência. Tenho um grave defeito (e acredito que toda a geração Y tenha) de ser muito sensível às críticas, muito nervoso em situações adversas ou que esteja sendo julgado. E ser rancheiro poria tudo isso a prova. E assim foi.
Durante janeiro, descobri que cozinhar é muito mais complexo. Não basta gostar. É preciso cozinhar pra muita gente, ter noção de quantidades. E ser muito rápido, pois o relógio misteriosamente acelera depois das 9h30m, e o almoço precisa ser servido às 11h30m. Além disso, some o calor terrível dentro da cozinha e a organização dos alimentos na despensa, o que toma tempo. E, vez ou outra, é preciso comprar mantimentos que faltam, e equilibrar os pedidos da guarnição com o limite de gastos que o setor financeiro estipula gerou alguns arranca-rabos onde fui coadjuvante e protagonista...
O mês passou. Pesquisava no youtube receitas novas, temperos, bem como instruções para afiar corretamente minhas preciosas facas – meus instrumentos mortais – usadas especialmente para o fim “militar-culinário”. Fui ficando mais rápido nas lâminas. Descascava batatas e cortava cebolas com mais facilidade, mas cortei os dedos também. Comprei uma caixa de band-aid especialmente pra esse tipo de coisa. E ela foi muito usada. Some aos eventuais cortes, também, as queimaduras. Por óleo, água e vapor. Já não bastassem as dificuldades que mencionei anteriormente, ainda tinha que tomar cuidado pra não me matar dentro daquela cozinha.

Observação: pelas minhas contas, devo ter me ferido umas oito vezes, todas sem gravidade. A pior foi quando enfiei a faca debaixo da unha do polegar esquerdo, o que doeu horrivelmente por dias. E só pra constar: eu não sujei comida com sangue! Eu limpava constantemente as facas! E aprendi o principal: o que causa acidentes é a faca mal afiada!
E nesse exercício de resiliência, acredito que cresci. E foi o principal objetivo. Realmente, encarei algumas situações enervantes (como atrasos no almoço, arroz queimando...), briguei com um monte de gente, recebi críticas construtivas e precisei encarar estas situações de julgamento que sempre me deixavam maluco (afinal, as pessoas estão comendo a comida que eu fiz! E se ficou ruim? Sem sal? Muito salgada? E se alguém passar mal?!).
E tive acertos. Recebi, algumas vezes, elogios das pessoas mais improváveis. E lá iam as forças se renovando pra inventar mais. Aprendi a afiar e cuidar das minhas facas. Testei novas receitas, aprendi algumas coisas importantes com colegas de serviço que já haviam passado por ali e exerci uma atividade diferente, desvendei mais essa faceta, essa engrenagem que faz a “máquina Corpo de Bombeiros” funcionar. E hoje, com o regresso do Cabo Paulinho, fico imensamente aliviado. Mais uma missão cumprida. Não de maneira tão competente, mas uma experiência a mais para poder compartilhar e contar. E algo que me trouxe ocupação e alívio para aceitar minha desolação no teste para guarda-vidas, que mexeu muito no meu orgulho.
Já fui pra incêndio, já atendi na ambulância, já vi gente morta. Já salvei gato, já mergulhei, já trabalhei em aeroporto. Já acordei de madrugada, já fiz vistoria de moto, já cavei soterramento.
E já trabalhei no rancho.



E ah, pra finalizar, no último dia de rancheiro, fiz meu exame no DETRAN, para a carteira D. Nunca fiz uma baliza de ônibus tão boa quanto aquela.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Garotas da minha vida #01 – A menina ampulheta


Nesta semana, a polaquinha completa quatro anos...
Quando ela nasceu, em janeiro de 2010, eu havia acabado de me inscrever, despretensiosamente, para o concurso da Polícia Militar do Paraná. Pouquinho tempo depois, seu pai, meu antigo vizinho e amigo de infância, me convidou para ser padrinho da menina, incumbência que aceitei com muita honra. Os “antigos” – como diz minha mãe – falam que o homem que tem uma afilhada menina é abençoado com muita sorte. E parece que deu certo.
Passei no concurso com um surpreendente primeiro lugar geral no Estado, feito que, acho eu, nunca mais repito. E progressivamente, enquanto fazia os demais testes – médicos, psicológicos, físicos e sociais – aquela recém nascida com lindos olhões claros foi se tornando meu grande afeto e, mais tarde, meu suporte para as provas que viriam.
Quando me mudei para Maringá, as visitas para Guarapuava eram bem escassas, por conta da rotina da escola de soldados. Mas a cada ida para casa, era obrigatória uma visita aos compadres e a minha primeira afilhada. E o tempo ia fazendo com que cada dia mais ela ganhasse um pouco de estatura, um dentinho a mais e uma crescente força nas pernas, dando seus primeiros passos.
Dessa maneira se procedeu até 2013, quando fui transferido para minha gelada, amarga e amada Guarapuava. Nas últimas visitas, já não vi mais o bebê de colo, cuja lembrança tanto me animou nos dias solitários de aventura pelo Paraná. É uma menina com mais da metade da minha estatura, que fala um monte, se comunica em Libras, corre para todo o lado e cuida de uma gatinha de estimação.

Hoje, sou padrinho de três crianças maravilhosas, mas dedico esse post a minha primeira afilhada, que mais do que um laço de família que me foi ofertado, representa para mim um relógio, um ponto de referência. Olhar para ela é ter noção de quanto tempo se foi desde que comecei a jornada dentro do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Paraná. E espero que assim continue, para que o dia em que eu me aposentar (espero chegar lá), ela esteja no auge de sua juventude adulta, quem sabe até mãe de seus próprios filhos. E daí, nesse dia, olharei para ela e pensarei: “Como o tempo passou...”

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O tempo na ponta da caneta

Uma das melhores decisões que tomei na vida, durante este um quarto de século, foi em 2008, quando adotei uma agenda e passei a registrar todos os compromissos e desejos do ano corrente.
No começo, não tinha tantos deveres e a agenda servia quase que unicamente como um diário. Com o passar dos anos ela foi ficando cada vez menos poética e mais pragmática (além de muito mais cheia). Além disso, a cada página inicial, escrevo metas muito claras para cada ano e me esforço por cumpri-las. Acredito que muito do que me tornei e consegui se deve hoje a estes objetivos escritos (exemplos de algumas das metas cumpridas desde lá: tirar habilitação, doar o equivalente a um dia de trabalho, comprar uma moto, conhecer a serra catarinense, fazer o curso de socorrista, participar de no mínimo dois concursos literários por ano e por aí vai).
Hoje, no ritual que realizo para abandonar uma agenda e adotar outra, revi todas as agendas desde 2008 e tive uma saborosa sensação de progresso. Engraçado ver como eu pensava diferente há cinco, seis anos atrás e como foi bom sentir que evoluí. Mais do que um caderno de lembretes e compromissos, nessas agendas estão parte da minha história, desde meu período mais sombrio até o dia que “resetei” minha vida, em 25 de junho de 2010. 
Fica um conselho pra você, que leu isso até o final. Se não tem, compre uma agenda e torne por hábito usá-la. Desde as pequenas tarefas até os grandes sonhos. E veja as engrenagens girando, além de nunca mais ser invadido pela desconfortável sensação de: “O ano passou e eu não fiz nada!”. Você verá que fez sim. E muito!

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Os sorrisos da noite branca

Neste domingo de tempestade, enfim meu querido lar passou pelo equinócio de primavera. E ficou para trás o primeiro inverno que passei em Guarapuava depois de regressar para trabalhar e morar aqui.
Foi interessante, apesar de sofrido, se readequar ao frio intenso que dominou dezenas de dias – secos e chuvosos – tendo como companheira minha inseparável bicicleta, que me mantinha aquecido no constante ritmo da pedalada.
Vou me lembrar do meu primeiro Cross Duathlon, onde corri e pedalei numa temperatura abaixo dos 7º C, atravessando um rio, me sujando de barro e conquistando uma colocação que, apesar de mediana, foi muito além do que imaginava que meu corpo seria capaz de conseguir.


Vou lembrar também da noite de 22 de julho, quando após um dia horrível, vi neve pela primeira vez na vida e fiz parte de uma cidade que voltou a ser criança e demonstrou alegria e gentileza como nunca antes tinha testemunhado. Na manhã seguinte, fui para o trabalho correndo, escorregando nas grossas camadas de gelo nas calçadas, sorrindo como nunca, com o sabor ainda vívido da pequena noite branca, que tornou minha segunda-feira menos triste.

E vou lembrar também de uma pequena passeada de moto, um abraço apertado e um passeio que muito me lembrou alguns filmes que já critiquei. Foi numa feira gigante que um casal sorriu, brincou num parque, atirou numa barraquinha de espingardas, comeu alfajor e falou sobre vida, futuro e tudo aquilo que de tanto dependemos para sonhar e continuar existindo. Terminou em dois beijos e um “até então”. Kiv deu sinais de querer novamente despertar, com seus temores e esperanças. Mas Kiv continuou nas sombras, tangente e adormecido...
Agora é início de primavera. As flores da árvore em frente a minha casa pesaram a ponto de arquear seus galhos e já se encheram com o zunido das abelhas e um cheiro adocicado de manhã campestre. E do inverno, sobreviverão duas coisas...
Uma lembrança doce e acalentadora e que, apesar de tão breve, me fez mais humano, talvez. Uma memória com gosto de Cappuccino e neve.

E a outra é uma música. Que recebi num fim de tarde tão gelado, junto com um desejo de boa noite. Um romance que não perdurou, mas cuja trilha virou minha lembrança deste inverno de crônicas brancas...