terça-feira, 11 de outubro de 2016

Pequenas experiências "muito além"

Sou um consumidor compulsivo de matéria cultural (tanto útil quanto inútil). Leio em ritmo de tartaruga, mas diariamente; gosto de cinema (preferencialmente nas segundas e terças-feiras), frequento as duas últimas videolocadoras que sobreviveram ao teste do tempo em minha cidade, ouço música sempre que saio de casa e jogo ocasionalmente videogame. Jung provavelmente diria que é um paliativo para o tédio terrível da vida moderna. Mas até que tem funcionado bem.
Entre a montanha de material lido, assistido, ouvido e jogado, há sempre alguma coisa que se destaca, mas de maneira especial, diferente. Mais do que atingir com louvor o quesito diversão, certas experiências marcam, fascinam e chocam. Felizmente, vez ou outra caio de encontro com um filme que me dá um nó na garganta, um livro cujo final me deixa atônito, uma música que me arrepia e até um jogo que me faz parar pra pensar. É uma experiência muito particular: talvez o que me marque profundamente possa não fazer diferença alguma para outra pessoa. Mas ainda assim, compartilho quatro experiências distintas que me despertaram de tudo, menos indiferença. Junto com elas, algumas menções honrosas de outras obras do gênero, que também carregam um poder, em minha opinião, que vai além do óbvio.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Humores Nublados

Diz minha mãe que, quando nasci, numa manhã de sexta-feira, chovia aos borbotões em Guarapuava.
Tenho uma estranha cisma com tempo cinza. Um temor, um suspense de não saber se é só uma garoazinha sem vergonha ou um pé d’água de respeito; mas ao mesmo tempo um fascínio. Nuvens muito negras correndo numa velocidade perceptível no céu, para então a qualquer momento aquele ar morno subitamente ficar frio. Antes da chuva, sempre “vira o vento”, como diriam os antigos.
Nas andanças, seja de moto ou bicicleta, trabalhando ou folgando, registro esses momentos, quando o céu vira uma moldura soturna. Quem disse que tempo bonito é somente céu azul e sol brilhando?

Fevereiro de 2012 – Subgrupamento de Campo Mourão

Janeiro de 2013 – Guarapuava, pedalando

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Filosofia da Estrada # 05



Categorias de Garupa

Desde que comecei a andar de moto, há alguns anos, nunca tive garupa fixa, ao contrário dos outros amigos motociclistas, que carregam suas esposas e constantemente me cobram/lembram/achincalham disso, o que é mais um dos vários motivos pelos quais prefiro viajar sozinho.
Entretanto, vez ou outra carrego alguém por motivos variados, que vão de uma simples carona até mesmo por vontade e curiosidade da garupa em dar uma volta numa moto custom. Minha Dragstar 650 é uma moto boa para quem vai no banco traseiro: além de apoio para as costas, o banco é mais alto que o do piloto, permitindo uma visão privilegiada de tudo que acontece em volta e sem bater os capacetes a cada freada.
Carregando pessoas diferentes, todavia, me faz perceber algo engraçado: a maneira como cada garupa se comporta. Algumas já têm experiência e ficam mais confortáveis no passeio, outras, ainda galho verde, se agarram no piloto como se sua vida dependesse disso (o que não deixa de ser verdade se considerarmos o jargão de que motociclista é acima de tudo um sobrevivente).
Hoje vou catalogar, para fins puramente humorísticos e despretensiosos, os tipos de garupa que já carreguei no lombo da minha antiga Viraguinho e minha atual Dragstar. Nomes não serão citados e o post não pretende de maneira alguma ofender as queridas pessoas que já tomaram um pouco de vento comigo – pessoas, inclusive, que guardo muita consideração.

- Garupa Manobra de Heimlich: entrelaça as mãos em torno do abdome do piloto. Cada acelerada é um golpe no diafragma e uma leve cuspida de ar. Pouca periculosidade, se você fizer abdominais periodicamente.

- Garupa Contrapeso: geralmente iniciante e com medo. Você joga o peso pra direita, ela imediatamente pende para a esquerda, desequilibrando a moto na curva, o que é bem trabalhoso de recuperar. Nível de periculosidade alto se você dobrar desprevenido alguma esquina. Uma conversa rápida sobre jogar o corpo junto com o piloto resolve de imediato o problema.

- Garupa Estranguladora: passa os braços em torno do pescoço do piloto e que “Deus nos acuda”. Apesar da baixa periculosidade, é um pouco desconfortável. Acontece quando o banco traseiro é mais alto que o dianteiro, permitindo o mata-leão.

- Garupa Valsa: a mais elegante de todas. Braço direito em volta do abdome do piloto, mão esquerda no ombro do mesmo. Confortável de andar, sem muita periculosidade. Aceleradas bruscas podem transformá-la de imediato na Garupa Mochila. Lembro bem de uma garupa valsa. Dava pra ligar qualquer dia desses e perguntar se ela quer novamente dar uma volta. :P

- Garupa Mochila: geralmente iniciante. Passa os braços no peito do piloto, trava as pernas no quadril e se segura desse jeito sem mover um músculo. É bom e seguro, pois não faz movimento algum nas curvas, não desequilibra a moto, não bate capacete... parece realmente uma mochila com as alças bem justas. A última garupa mochila que carreguei, acho, inclusive, que se desmontasse da moto sem falar nada, ela continuaria pendurada nas minhas costas. Hue

Bônus – Garupa Titanic: certa feita, levei uma amiga para um passeio e não percebi mão alguma me segurando. Imaginei que estivesse se apoiando no sissy bar. Também pela altura do banco dela, não conseguia ver nada pelo espelho. Tudo bem. Algum tempo depois, um colega me perguntou quem era a guria que estava de braços abertos na minha garupa e dando tchau pra todo mundo na rua. “Ah, tá explicado”.

A gente pilota e não vê de tudo, hehe.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A Jornada da Heroína

Em meados de 1950, Joseph Campbell publicou o livro “O herói de mil faces”, onde comparava mitos, lendas e religiões do mundo inteiro, evidenciando suas semelhanças e dissecando-as em uma série de passos que chamou de “monomito” – o mito único. Assim, de acordo com sua pesquisa, todo herói passa por situações bem parecidas, cujo mote básico é sair de um mundo comum, embarcar em uma aventura, superar uma grande provação e retornar, transformado. Seu trabalho influenciou o cinema e a literatura desde então, sendo facilmente detectável em obras como Guerra nas Estrelas, Matrix, Harry Potter, entre outros.
Um fato curioso, entretanto, é que nos mitos antigos o herói geralmente é um homem, e a mulher quase sempre é representada por um aspecto feminino superior: uma deusa, uma grande mãe ou sacerdotisa, que auxilia, e eventualmente desafia o herói. Há alguns poucos exemplos de mulheres protagonistas de seus próprios mitos – Perséfone, Alceste, Anesidora – mas elas são minoria e infelizmente, pouco conhecidas.
Mas no post de hoje – que marco como meu retorno aos escritos deste empoeirado blog – quero mencionar algumas heroínas modernas da sétima arte. Mulheres que passaram pela jornada do herói em seus respectivos filmes, e que mostraram algum aspecto de caráter que me chamou a atenção. A lista é pequena – muitas outras heroínas do cinema poderiam ser mencionadas – mas acredito que o grupo é diverso e segue as minhas preferências cinematográficas.

ALERTA: SOLTO SPOILERS DE TODOS OS FILMES MENCIONADOS, INCLUSIVE EVENTUAIS REVIRAVOLTAS.

quinta-feira, 19 de março de 2015

A sombra de um dia 18


"O que é um fantasma?
Um evento terrível condenado a repetir-se eternamente?
Um instante de dor, talvez?
Algo morto, que por um momento ainda parece vivo?
Um sentimento, congelado no tempo?
Como uma fotografia embaçada;
como um inseto preso no âmbar.

Um fantasma. Isso é o que sou."

(retirado do filme: A Espinha do Diabo, de Guillermo del Toro).

Há um ano perdi um amigo. Não sei mais o que escrever.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A Desolação de Lara

Por volta de dezembro do ano passado, um fato começou a gerar preocupação no quartel: O Cabo Paulo, vulgo Paulinho, ia tirar férias. Preocupante, pois, afinal, ele era o rancheiro do grupamento (o militar responsável por fazer a comida), e possuía não só paixão pela coisa como uma habilidade enorme no manejo e preparação de alimentos. Ao contrário da fama negativa e engraçada que a maioria dos quartéis possui por conta de sua comida (carne de monstro, frango dinamitado e chá de gandola são gírias de caserna recorrentes), em Guarapuava come-se muito bem. Até melhor que em muitos restaurantes por aí...
Era preciso achar um substituto. Alguém que assumisse a função de rancheiro no longo mês que seguiria das suas férias. E eu, metido como sempre, coloquei meu nome como voluntário.
Não é segredo para ninguém que minha maior decepção de 2013 foi reprovar na última prova para admissão ao curso de guarda-vidas, coisa que ainda almejo loucamente dentro do Corpo de Bombeiros. Negligência minha, com certeza, que irei reparar este ano, tentando novamente. O fato é que, uma vez reprovado, pensei muito em coisas que poderia fazer, já que ficaria durante todo o verão em Guarapuava, e não trabalhando no litoral. A primeira providência foi realizar minha sonhada viagem para a Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina, jornada que levou quatro dias e 1600 km, com direito até a uma visita ao Beto Carrero e um pernoite de emergência em motel (sozinho!). 

Após a viagem, resolvi imediatamente começar a autoescola e tirar a almejada categoria D, o que me permitirá no futuro pilotar a ambulância e até mesmo o caminhão de combate à incêndios. E para completar a ocupação da minha cabeça, resolvi ser o rancheiro. Primeiro, por gostar e saber um pouco sobre cozinha. Segundo, porque o horário de trabalho do rancheiro é muito bom. Mas o motivo mais forte foi o terceiro. Que explico adiante.
Eu não chego nem perto das habilidades culinárias do cabo Paulinho. Sabia que receberia críticas e muitas brincadeiras ao longo de janeiro. Mas resolvi tentar como um exercício de resiliência. Tenho um grave defeito (e acredito que toda a geração Y tenha) de ser muito sensível às críticas, muito nervoso em situações adversas ou que esteja sendo julgado. E ser rancheiro poria tudo isso a prova. E assim foi.
Durante janeiro, descobri que cozinhar é muito mais complexo. Não basta gostar. É preciso cozinhar pra muita gente, ter noção de quantidades. E ser muito rápido, pois o relógio misteriosamente acelera depois das 9h30m, e o almoço precisa ser servido às 11h30m. Além disso, some o calor terrível dentro da cozinha e a organização dos alimentos na despensa, o que toma tempo. E, vez ou outra, é preciso comprar mantimentos que faltam, e equilibrar os pedidos da guarnição com o limite de gastos que o setor financeiro estipula gerou alguns arranca-rabos onde fui coadjuvante e protagonista...
O mês passou. Pesquisava no youtube receitas novas, temperos, bem como instruções para afiar corretamente minhas preciosas facas – meus instrumentos mortais – usadas especialmente para o fim “militar-culinário”. Fui ficando mais rápido nas lâminas. Descascava batatas e cortava cebolas com mais facilidade, mas cortei os dedos também. Comprei uma caixa de band-aid especialmente pra esse tipo de coisa. E ela foi muito usada. Some aos eventuais cortes, também, as queimaduras. Por óleo, água e vapor. Já não bastassem as dificuldades que mencionei anteriormente, ainda tinha que tomar cuidado pra não me matar dentro daquela cozinha.

Observação: pelas minhas contas, devo ter me ferido umas oito vezes, todas sem gravidade. A pior foi quando enfiei a faca debaixo da unha do polegar esquerdo, o que doeu horrivelmente por dias. E só pra constar: eu não sujei comida com sangue! Eu limpava constantemente as facas! E aprendi o principal: o que causa acidentes é a faca mal afiada!
E nesse exercício de resiliência, acredito que cresci. E foi o principal objetivo. Realmente, encarei algumas situações enervantes (como atrasos no almoço, arroz queimando...), briguei com um monte de gente, recebi críticas construtivas e precisei encarar estas situações de julgamento que sempre me deixavam maluco (afinal, as pessoas estão comendo a comida que eu fiz! E se ficou ruim? Sem sal? Muito salgada? E se alguém passar mal?!).
E tive acertos. Recebi, algumas vezes, elogios das pessoas mais improváveis. E lá iam as forças se renovando pra inventar mais. Aprendi a afiar e cuidar das minhas facas. Testei novas receitas, aprendi algumas coisas importantes com colegas de serviço que já haviam passado por ali e exerci uma atividade diferente, desvendei mais essa faceta, essa engrenagem que faz a “máquina Corpo de Bombeiros” funcionar. E hoje, com o regresso do Cabo Paulinho, fico imensamente aliviado. Mais uma missão cumprida. Não de maneira tão competente, mas uma experiência a mais para poder compartilhar e contar. E algo que me trouxe ocupação e alívio para aceitar minha desolação no teste para guarda-vidas, que mexeu muito no meu orgulho.
Já fui pra incêndio, já atendi na ambulância, já vi gente morta. Já salvei gato, já mergulhei, já trabalhei em aeroporto. Já acordei de madrugada, já fiz vistoria de moto, já cavei soterramento.
E já trabalhei no rancho.



E ah, pra finalizar, no último dia de rancheiro, fiz meu exame no DETRAN, para a carteira D. Nunca fiz uma baliza de ônibus tão boa quanto aquela.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Garotas da minha vida #01 – A menina ampulheta


Nesta semana, a polaquinha completa quatro anos...
Quando ela nasceu, em janeiro de 2010, eu havia acabado de me inscrever, despretensiosamente, para o concurso da Polícia Militar do Paraná. Pouquinho tempo depois, seu pai, meu antigo vizinho e amigo de infância, me convidou para ser padrinho da menina, incumbência que aceitei com muita honra. Os “antigos” – como diz minha mãe – falam que o homem que tem uma afilhada menina é abençoado com muita sorte. E parece que deu certo.
Passei no concurso com um surpreendente primeiro lugar geral no Estado, feito que, acho eu, nunca mais repito. E progressivamente, enquanto fazia os demais testes – médicos, psicológicos, físicos e sociais – aquela recém nascida com lindos olhões claros foi se tornando meu grande afeto e, mais tarde, meu suporte para as provas que viriam.
Quando me mudei para Maringá, as visitas para Guarapuava eram bem escassas, por conta da rotina da escola de soldados. Mas a cada ida para casa, era obrigatória uma visita aos compadres e a minha primeira afilhada. E o tempo ia fazendo com que cada dia mais ela ganhasse um pouco de estatura, um dentinho a mais e uma crescente força nas pernas, dando seus primeiros passos.
Dessa maneira se procedeu até 2013, quando fui transferido para minha gelada, amarga e amada Guarapuava. Nas últimas visitas, já não vi mais o bebê de colo, cuja lembrança tanto me animou nos dias solitários de aventura pelo Paraná. É uma menina com mais da metade da minha estatura, que fala um monte, se comunica em Libras, corre para todo o lado e cuida de uma gatinha de estimação.

Hoje, sou padrinho de três crianças maravilhosas, mas dedico esse post a minha primeira afilhada, que mais do que um laço de família que me foi ofertado, representa para mim um relógio, um ponto de referência. Olhar para ela é ter noção de quanto tempo se foi desde que comecei a jornada dentro do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Paraná. E espero que assim continue, para que o dia em que eu me aposentar (espero chegar lá), ela esteja no auge de sua juventude adulta, quem sabe até mãe de seus próprios filhos. E daí, nesse dia, olharei para ela e pensarei: “Como o tempo passou...”