Sentimentos são coisas
inevitáveis e muito estranhas. Por mais que meu escudo de frieza insista nesse
assunto, vez ou outra, sou fisgado por uma nova poesia de corações e sombra em
minha cabeça.
Existe sim uma carência latente
em cada pessoa. Nunca acreditei na conversa de alguns que alegam não sentir
necessidade alguma de compromisso ou carinho. Em minha opinião, esse alguém
guarda um remorso por não ter achado a pessoa certa. Não uma alma gêmea, um
predestinado, apenas outra pessoa, também carente, que disponha de um tanto de
equilíbrio emocional, alguns gostos parecidos, boa vontade, paciência e uma
aparência agradável para o companheiro.
Sonhos e projeções pueris também
fazem parte desse cenário. É o que torna a coisa açucarada e encantadora. O
excesso provavelmente virá a ser prejudicial (e muito embaraçoso para amigos
que se tornam testemunhas forçadas), mas a dose de poesia num romance sempre é
bem vinda.
E é nesses sonhos e projeções,
que colecionei dentre os vários anos de tormentosa adolescência até hoje, que
guardo, até mesmo com carinho, todos os meus fracassos e devaneios...
(Caso você não seja diabético e
tenha coragem e estômago suficientes para ler algo sem sentido, clique em
Continuando, logo abaixo. Caso contrário, já fico agradecido da visita. O
que tinha para o dia 12 de junho fica nisso.)
Nunca acreditei nesse papo de que
ter uma moto (ou outro veículo automotor qualquer) fosse a mesma coisa que
criar um filho. Até o dia que comprei minha moto e concluí que é verdade
mesmo... pelo menos financeiramente e na questão de cuidados, que tornam-se
mais acentuados e frequentes do que os que eu sempre dispensei para minha
bicicleta, que continua minha fiel companheira na cidade.
Mas o fato que quero narrar se
deu justamente quando, após um dia inteiro procurando pela cidade (de
bicicleta), achei uma determinada peça para moto num ferro velho. Era final de
tarde, mas durante o dia todo houve uma recusa em amanhecer. Não me lembro de
ter presenciado dias tão cinzentos em Campo Mourão, mas sim, apenas na minha
saudosa e soturna Guarapuava. Com a noite se aproximando e feliz por ter
encontrado a peça, voltei para a pensão pela rua da Paróquia Nossa Senhora
Aparecida, na vila Urupês. Faltando algumas quadras para meu destino, me
deparei com uma destas pequenas cenas de cotidiano que tornam meus dias simples
mais felizes. Era noite de feira livre.
A cada dia da semana a feira
ocorre em determinado bairro de Campo Mourão. Logo que me mudei para cá e ainda
morava no Montes Claros, lembro-me que era quase um hábito sagrado visitar a
feira as sextas, vendo a movimentação na praça e enchendo a barriga de pastel,
bolo e caldo de cana. Entretanto, quando mudei para o centro, esse hábito se
perdeu nas cinzas, substituído naturalmente pelos hábitos de uma nova rotina.
Mas eis que, naquela terça
monocromática e fria, lá estava a feira livre. Me recepcionando. Não resisti.
Desmontei da bike e novamente fascinado, olhei as barraquinhas com frutas,
legumes e toda a sorte de lanches e quitutes. Melhor que isso era observar como
as pessoas percorriam o local numa paz que não estou acostumado na cidade...
Apesar de pequena, Campo Mourão não é o perfil de uma cidade pacata. Quem
duvida disso, pergunte para algum policial militar ou bombeiro. São muito
comuns as mortes por armas de fogo e armas de combustível, motor e rodas... Mas
ali, naquelas duas quadras com iluminação laranja, as pessoas conversavam
despreocupadas e o clima era de uma pequena vila. Durante meu trajeto, um
menino de aproximadamente seis anos olhou fascinado para minha bicicleta e
disse: “olha pai, uma bicicleta com luzes!”. Sorri para ele. E logo após comer
um pastel, daqueles que misteriosamente tem “gosto de feira”, o menino
novamente me abordou: “ei moço, essa caneta é sua?”, referindo-se a uma caneta
encontrada no chão, ali perto. O objeto não me pertencia, mas minha
identificação com a criança foi quase imediata. Educadamente, o menino se
retirou e voltou para a companhia do pai, que pelo discreto sorriso, parecia
orgulhoso de criar um rapaz educado já em tenra idade.
Quanto a mim, segui destino logo
após, com a noção de que criar um filho e manter uma moto são duas coisas bem
onerosas e ocupantes. Mas o prazer de se fazer isso é evidente. O da moto é
sentir o vento no rosto na imensidão da estrada em frente. E o do filho, vi
hoje, ao olhar o rosto daquele pai.
Eu disse certa vez, para meu amigos, que um dia seria herói...
Um sonho infantil e bobo, alimentado dia após dia, mas ofuscado pela óbvia rotina do trabalho, do dever, e da seriedade da vida adulta...
Entretanto, num dia qualquer, num parágrafo curto, ali no meio de um jornal, uma breve menção me faz sorrir. Uma situação que beira quase uma história infantil. Mas que acontece de vez em quando. E me faz ver que “ser herói” é um sonho que vale a pena sonhar. E viver!
Por fim, um clipe da música Hero, com cenas do filme Cruzada (Kingdom of Heaven), que apesar de tratar de uma época tão longínqua, foi minha inspiração nos dias que minha casa deixou de ser Guarapuava - minha simbólica França - para se tornar Maringá, minha simbólica Jerusalém dos Peregrinos...
Em poucos segundos, as glândulas
supra-renais liberam uma quantidade considerável de adrenalina. O suficiente
para o sangue se concentrar nos sistemas nervoso e muscular, dilatar as
pupilas, aumentar a freqüência respiratória e cardíaca. É a reação imediata em
situações de perigo e emergência. E a mesma que me faz levantar no meio da
madrugada quase grudado ao teto.
Nos primeiros dias de rampa, o
efeito do sinal de emergência era devastador. Numa certa madrugada, quando o
alarme tocou longamente – por um grave acidente de rodovia – eu estava com a
pulsação tão forte que sentia o sangue passando pela carotídea sem nem ao menos
encostar os dedos no pescoço. Pensei (seriamente) que teria um infarto.
Não é unânime em todos os
quartéis de bombeiros, mas onde trabalho, os sinais de aviso funcionam da seguinte
forma: acidentes ou emergências que necessitam da ambulância, toca-se uma vez a
cigarra (que produz um som parecido com algumas estridentes campainhas de
portão). Geralmente, quanto mais grave, maior o tempo que o telefonista segura
o botão da cigarra. Dois toques seguidos da cigarra, resgate com o caminhão e
desencarceramentos (esse sinal é mais raro de ser usado). E por fim, quando se
trata de incêndio, o telefonista toca a “Catarina”, a tradicional sirene, que
produz um som que parece um grito saído do próprio inferno!!!
O fato é que, passados os meses,
esses alarmes tornam-se corriqueiros, padrões. Um som enraizado na cabeça dos
bombeiros. E é aí que começam os problemas...
Ao lado da pensão onde eu moro, o
vizinho instalou uma campainha que produz um som idêntico a cigarra do quartel. De vez em quando estou descansando no meu quartinho quando, de repente, o
som da campainha ecoa. Apesar de distante, é suficiente para meu corpo liberar
imediatamente uma descarga de adrenalina. É automático, independente da minha
vontade. Obviamente eu não pulo da cama feito um maluco procurando pela
ambulância, mas imediatamente o sono vai embora e meu coração levemente
acelera. Leva alguns minutos para eu voltar ao normal... E assim ocorre sempre
que um som semelhante chega aos meus ouvidos (inclusive a campainha da casa dos
meus pais...).
Outro hábito condicionado ocorre
com o telefone. Em Campo Mourão, os bombeiros costumam revezar funções: saem no
caminhão, atendem na ambulância e por vezes ficam na central telefônica. Na
central recebemos milhares (sim, é mais de mil mesmo) ligações diárias, sendo a
esmagadora maioria trotes ou enganos. Mas o protocolo mantém-se inalterado.
Telefone tocou: “Bombeiros emergência!”. Essa frase é repetida tantas e tantas
vezes por dia, que certa vez, de folga, na casa dos meus pais, o telefone tocou
e ao atendê-lo, fiquei quase três segundos em silêncio, pensando no que
falaria, pois a única coisa que me vinha à cabeça era: “bombeiros, emergência”.
Por fim, após pensar um pouco, respondi com o tradicional “alô”.
Se não me engano, foi Ivan
Pavlov, um proeminente médico, que introduziu os conceitos de comportamento
condicionado (ele era médico, mas se tornou notório pelas pesquisas na área de
psicologia comportamental...).
E é nos pequenos hábitos da vida
castrense que algumas coisas vão grudando na nossa mente, confirmando teorias
psicológicas e gerando alguns pequenos transtornos, que podem ser vistos – por
que não – como situações engraçadas, dignas do “Bombeirices”...
Das três cidades que me
acolheram, guardo como símbolo de suas boas vindas o baluarte de fé cujo simples
relance sempre me renovou num ideal tão difícil de manter...
Respectivamente as Catedrais de
Guarapuava, Campo Mourão e Maringá.
Lá se vão quase dois anos desde
que abandonei minha zona de conforto em busca de uma promessa de aventura,
redenção e emprego estável... Nesse meio tempo, me tornei um visitante da minha
própria casa, e no decorrer dos meses, a terrível saudade inicial que me fazia
sonhar com meu passado em Guarapuava aos poucos foi sumindo em favor da minha adaptação
à vida independente.
Por um lado, foi gratificante.
Dizem que é saindo da zona de conforto que a vida começa, e não poderia
traduzir isso de melhor maneira do que
indo morar durante meio ano num quartel em Maringá e ver e viver coisas que me
enervaram, mostrando o quanto meu filtro psicológico estava fraco (não que
tenha melhorado muito, mas estou constantemente tomando providências quanto a
isso).
Após Maringá, já formado soldado,
me juntei as fileiras de Campo Mourão. Mais uma vez um lugar que me afeiçoei
ficou para trás, em promessa de um novo lar. E Campo Mourão é atualmente minha
casa.
Entretanto, essas mudanças em
tempo relativamente curto surtiram um efeito desconfortável... A cada dia, vejo que menos tenho um lar, um lugar só meu. Mesmo após um ano em Campo Mourão,
ainda me sinto um estranho, sendo minha única conexão com meu antigo mundo
minha tão amada Ordem DeMolay, com meus Irmãos, Tios e Tias mourãoenses.
Maringá foi (e é) um
lugar maravilhoso, de lembranças ferozes e doces, entretanto é uma cidade
que hoje valorizo apenas a visita, não é um lugar que atualmente desejo morar.
E quanto a Guarapuava... meu coração ainda bate forte por minha terra de vento,
frio e nebulosos dias de inverno, mas cada vez que vou lá, sinto que sou apenas
uma visita, que já cortei de certo modo meu cordão umbilical, apesar da
saudade...
E todos esses sentimentos se
juntam ao fato de que constantemente viajo pelo meu Estado, em eventos,
visitas, concursos ou simples aventura... Uma mochila nas costas, uma plaquinha
e um destino. E um pequeno mundo cinza que me faz crer cada vez mais que minha
casa já não é mais uma cidade, mas um Estado inteiro...
Nota sem noção: muita gente fica
impressionada (ou consternada) quando conto que todos os pertences que tenho
para viver em Campo Mourão cabem numa mochila de 80 litros (com exceção da
bicicleta, rsrs). E que até hoje nunca mais tive cobertor, e quando faz frio,
apenas me cubro com o saco de dormir.
Viver sozinho também me tornou criteriosamente minimalista...
A despeito de uma vida divertida e aventureira, a atividade de bombeiro também reserva surpresas bem desagradáveis para seus combatentes.
Existe um simbolismo imponente quando uma viatura cruza as ruas com todas as sirenes ligadas. É um aviso de que a segurança pública está em ação, mas também o triste sinal de que alguém está perdendo. Seja um bem material ou a própria vida.
A cada dia que passa uma nova cicatriz protege o coração dos bombeiros que testemunham a dor de desconhecidos. Não se trata de indiferença ou frieza. É um escudo.
Tenho quase dois anos de caserna e vi esperanças e vidas se esgotando. Vi gente morta. Idosos, caras da minha idade e certa vez uma criança... Acidentados de trânsito, cardíacos, doentes terminais e até mesmo um carbonizado. Tem também gente que perdeu quase tudo no fogo (lembrando que o que incendeia geralmente é a simples casa de madeira em decorrência de uma vela, e não o imponente sobrado de alvenaria...).
Menos de dois anos... Convivo com colegas de caserna com 7, 15, 25, 32 anos de serviço. E que devem guardar em memórias profundas ocorrências que eu nem imagino.
Por isso, quando no meio da madrugada toca a cigarra de alerta ou ainda a infernal sirene, um arrepio de leve percorre o combatente. Serviço é serviço, mas nos segundos de correria que separam alojamento da rampa de viaturas, muita coisa deve passar pela cabeça dos notívagos militares do Corpo de Bombeiros. Recrutas e veteranos, cada um escrevendo sua pequena história vermelha...
Uma coisa que sinto falta de Guarapuava é a constante atmosfera cinza que povoa meus tão amados dias de outono. O céu nubla, começa a chuva... E esse tempo desbotado perdura por dias, semanas até... Aqui em Campo Mourão isso não acontece. Não lembro nem mesmo a última vez que choveu por aqui, mas já fazia um bom tempo. Até que, de repente, numa quinta de manhã, o clarão vespertino não veio. Somente a chuva. E um friozinho bem leve. A noite caiu, e tomado por uma nostalgia terrível, peguei minha bicicleta e saí pedalar pelas ruas praticamente vazias. A cerração recolhe as pessoas em suas casas, espanta motociclistas, diminui o tráfego de carros. Nesta hora, uma bicicleta solitária cruza o centro mourãoense, sob o fascínio dos postes de vapor de sódio, que emitem sua característica cor alaranjada e emitem fachos visíveis pela névoa que toma conta de tudo.
Tudo isso me lembra um passado que já foi meu. Uma faculdade, um sonho, uma revolta... Uma outra vida que tive há anos atrás e abandonei. E cuja redenção hoje é apenas minha promessa de lapidar um dia melhor, um homem melhor,...
E em comum, apenas esses dias tão estranhos, quando o céu noturno ganha uma coloração dessas.